créditos: Bella da Semana

Tantra

Acho que eu já aprontei tanto nessa vida, já fiz tanta coisa - nesses 29 anos - que a maioria das pessoas não ousaria pensar em uma vida toda, que às vezes eu penso que nada vai me surpreender, nada mais vai ser novidade. Ainda bem que até agora a vida sempre me mostrou o contrário: sempre acontece alguma coisa pra me surpreender, pra me estimular... e foi assim que eu fui parar na Índia nessas férias. Estava eu muito calmamente fazendo minha aula e kung fu numa maravilhosa terça à noite quando aparece um aluno novo, liiiiiiiiiindo de morrer. Lindo de dar vontade de ajoelhar no chão e agradecer a Jah. A pele morena, não, dourada na verdade, o cabelinho castanho, loirinho de sol nas pontas, corpo perfeito, a própria encarnação da saúde. Como eu sou (e, diga-se de passagem, sempre fui) a pessoa mais sortuda da biosfera, o professor coloca "essa coisa toda" pra treinar comigo. Procedimento padrão: ele sempre coloca os novos pra treinar com quem já pratica ha mais tempo, já que não pode ficar o tempo todo dando atenção. Eu, evidentemente muito solícita, falei que o prazer seria todo meu, bla bla bla. Corrigia golpe daqui, dava dicas de concentração dali e, nesse meio tempo, é claro que puxei conversa. Uma coisa levou `a outra, acabamos indo tomar um suco depois da aula. Ele me disse que o nome dele era Suria (sol em sânscrito, ai, como e bom ser culta!), que os pais dele praticavam Yoga ha milênios e, por conseguinte, ele também, desde criança. Disse que na verdade a paixão dele é e sempre vai ser o Yoga e que tinha ido ali mais pra sentir como era. Me mostrei extremamente interessada - o que era verdade - ele me disse que já que eu tinha sido tão paciente com ele durante a aula de kung fu, ele ficaria muito feliz em retribuir o favor, me dando uma aula de yoga. Disse que praticava em casa, me deu o endereço e já marcamos um horário - a saber, sexta de manhã mega cedo - pra começar. Tenho verdadeiro pânico de acordar cedo, essa aliás, foi uma forte razão pra eu querer me tornar escritora, mas tudo bem, qualquer coisa em nome de novas experiências, abrir a mente vale qualquer esforço. Lá fui eu, 8 da madrugada, atravessar a Ilha até a casa dele no Canto da Lagoa. Do portão já deu pra perceber que uma completa roubada não seria: uma casa maravilhosa, rústica, na beira da Lagoa, com um entorno igualmente maravilhoso e um Vaimaraner quase tão lindo quanto o dono pra me receber aos pulos. Ele já tinha colocado nossos dois tapetinhos na grama, de frente pra Lagoa da Conceição, mais perfeita do que nunca naquele dia, refletindo o céu cinzento, com cara de poesia. Entre os tapetes e a Lagoa, uma estatua de Ganesha - um dos principais deuses da mitologia hindu, que tem carinha de elefante - e um incenso. Fiquei encantada. A prática de hatha yoga me deixou igualmente inebriada. Depois da prática, ele me convidou pra tomar café da manha com ele e eu, obviamente, aceitei o convite. E foi durante o café da manha que ele finalmente disse as palavras que eu tava esperando desde que ele me disse o nome: Tantra. A maioria das pessoas têm a noção errônea de que Tantra e perversão de hindu, mas eu felizmente tenho respeito suficiente por outras culturas pra saber que Tantra e uma filosofia que usa o sexo como maneira de se atingir o sagrado. Desfilei então pra ele todo o meu conhecimento (ai, eu sei ser charlatona quando eu quero!), sem deixar de demosntrar curiosidade pra aprender um pouco mais, e evidente. E foi então que ele me surpreendeu como poucas pessoas ate hoje: me falou que sobre Tantra pouco e possível explicar, tem que sentir. A essas alturas eu já tava pulando de alegria por dentro, muitíssimo feliz com o rumo que a conversa is tomando. E ele me joga um balde de água fria: ele não faz sexo ha mais ou menos um milênio, faz uma prática meditativa que, de acordo com ele, proporciona um orgasmo eterno, o famigerado Nirvana. Eu achei que ia cair da cadeira, derreter, virar pedra, qualquer coisa de anormal. E ele, tal qual o Criador brincando de transformar bonequinho de barro em gente, sopra a vida de volta aos meus pulmõezinhos, já clinicamente mortos: ele faz uma massagem nas iniciantes, a massagem Yoni. Eu já tinha lido a respeito, Yoni significa fonte da vida, em sânscrito, ou seja, se ele massagear a minha fonte da vida já me dou por muito feliz! E foi exatamente isso o que ele fez. Me levou pro quarto dele, fechou as cortinas, acendeu velas, colocou música, me pediu pra tirar a roupa (deve ter pensado que eu era a Jeanny, porque bastou um piscar de olhos) e me colocou deitada de barriga pra cima, com uma almofada bem confortável em baixo do bumbum. Me pediu pra fechar os olhos e relaxar. Disse também que o orgasmo não era o objetivo da massagem, mas que isso seria um efeito bem vindo. Concordei mentalmente. Percebi as mãos dele deslizando pela parte interna das minhas coxas, subindo pacientemente, como se estivessem muito felizes em "passear por ali". A sensação era extremamente agradável e muitíssimo excitante. As mãos felizes demoraram-se um tempo pela minha virilha, ainda como se estivessem brincando. Numa situação normal, a essa altura eu estaria subindo pelas paredes; mas não ali. Eu tava realmente entrando no barato dele, curtindo o presente sem pensar no futuro, profundamente relaxada, sentindo um prazer intenso. Então as mãozinhas felizes entraram sem bater, subentendendo que eram muito bem vindas. Comecei a gozar nesse exato momento. Um gozo diferente, intenso e continuo. Difícil mesmo pra explicar, mesmo pra uma escritora com vasta experiência em descrever orgasmos. Eu gozava com o meu corpo inteirinho ate nas pontinhas dos cabelos. Definitivamente memorável. Mas ele continuou por horas a fio e eu continuei gozando por um tempo tão longo que era difícil de mensurar. Entendi realmente o que era chegar ao sagrado através do sexo: parecia mesmo que eu tava conversando com Deus sobre os assuntos mais interessantes, entendendo todo o significado da existência. Um orgasmo filosófico, eu diria, uma epifania. Depois ficamos lá, os dois, paradinhos, olhando pro nada, deitados de costas por ainda muito tempo. Já na cozinha, enquanto ele preparava o melhor curry do sul do mundo, combinamos nossa viagem à Índia. Mas essa é uma outra história...

Stephany


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